Além da fragmentação do sono e do índice de gravidade da apneia: os caminhos menos conhecidos da AOS que comprometem a memória
A apneia obstrutiva do sono (AOS) tem sido tradicionalmente discutida a partir de suas repercussões cardiovasculares e metabólicas. No entanto, um corpo crescente de evidências tem chamado atenção para sua associação com alterações cognitivas, em especial o comprometimento da memória.1,2
Como a memória funciona e por que o sono é essencial
A memória é um processo dinâmico que depende da aquisição, armazenamento e posterior recuperação de informações. Um componente central desse sistema é conhecido como consolidação da memória, etapa na qual conteúdos recém-aprendidos são estabilizados e passam da memória de curto prazo para a memória de longo prazo. Esse processo envolve a reorganização e o fortalecimento dos circuitos neurais, modificações na plasticidade sináptica e, de modo essencial, ocorre durante o sono.3
Impacto da AOS na consolidação da memória
A AOS interrompe justamente esse ambiente fisiológico necessário à consolidação da memória. Os episódios repetidos de obstrução parcial ou total da via aérea levam à hipóxia intermitente, hipercapnia e fragmentação do sono, condições que, em conjunto, promovem respostas neurofisiológicas deletérias. Estudos clínicos e experimentais indicam que essas alterações podem impactar negativamente diferentes domínios da memória, incluindo memória visual, memória verbal e memória de curto prazo. E essa associação é mais pronunciada em pacientes com AOS moderada a grave.1
Hipóxia intermitente e outros fatores associados
Em muitas pesquisas, a intensidade da hipóxia noturna, estimada por parâmetros como a saturação média de oxigênio e o índice de dessaturação de oxigênio (IDO), é mais fortemente associada às alterações cognitivas do que o próprio índice de apneia-hipopneia (IAH). Esse achado reforça o conceito de que o IAH, embora amplamente utilizado, não reflete de maneira adequada o impacto fisiológico da AOS sobre o cérebro.1
Mas, além da hipóxia, outros fatores têm sido associados ao comprometimento da memória em pacientes com AOS.1 A hipercapnia aparece como um possível contribuinte adicional, embora sua influência isolada ainda seja objeto de debate, uma vez que geralmente está acompanhada de hipóxia mais intensa e maior gravidade clínica.
A presença de sonolência diurna excessiva, idade avançada e menor escolaridade também se correlacionam com pior desempenho nos testes de memória. Em termos genéticos, o genótipo ApoEε4 (alelo ε4 da apolipoproteina E) tem sido referido como um fator de susceptibilidade em alguns estudos, especialmente no que diz respeito à memória visual.4
Mecanismos biológicos e danos neuronais
A compreensão dos mecanismos biológicos responsáveis por esses déficits cognitivos revela um cenário ainda mais complexo. A AOS ativa uma série de vias patológicas que incluem neuroinflamação, estresse oxidativo, danos neuronais, alterações da plasticidade sináptica e disfunção da barreira hematoencefálica (BHE).
A hipóxia intermitente e a fragmentação do sono são estímulos capazes de promover a liberação de citocinas pró-inflamatórias, como IL-1β, IL-6 e TNF-α, tanto na circulação quanto no tecido cerebral, especialmente no hipocampo, estrutura crítica para os processos de memória.1
Além disso, há ativação de microglia, alteração da atividade mitocondrial e aumento da produção de espécies reativas de oxigênio (ROS), que ultrapassam a capacidade antioxidante local e contribuem para danos celulares.
Especificamente com relação a disfunção da BHE, estudos sugerem que a permeabilidade aumentada permite maior passagem de substâncias potencialmente nocivas, incluindo componentes derivados da microbiota intestinal e exossomos inflamatórios, que podem intensificar o dano neuronal e agravar o prejuízo cognitivo.1
Tratamento e perspectivas
Mas, embora a relação entre AOS e comprometimento de memória seja amplamente documentada, a literatura também aponta caminhos promissores para mitigação desses danos. O tratamento com pressão positiva contínua nas vias aéreas (CPAP) tem mostrado benefícios consistentes na recuperação da memória.5
Curiosamente, mesmo tratamentos de curta duração já demonstram melhora em memória verbal e lógica.6 No entanto, tais ganhos são fortemente dependentes da adesão ao tratamento, sendo significativamente maiores em pacientes que utilizam o CPAP de forma regular e adequada.1
Assim, a identificação precoce de pacientes com maior risco de comprometimento cognitivo torna-se essencial, uma vez que a AOS é um importante fator modificável de risco para declínio de memória.2 Para profissionais de saúde, compreender a relação entre a doença e memória é fundamental para orientar decisões clínicas, reforçar a adesão ao CPAP e promover ações preventivas que possam reduzir o risco de deterioração cognitiva em longo prazo.1,6
Perguntas frequentes sobre AOS e memória
1) Qual a relação entre AOS e memória?
A AOS está associada a alterações cognitivas, especialmente comprometimento da memória, devido à hipóxia intermitente, hipercapnia e fragmentação do sono.
2) Quais domínios da memória podem ser afetados?
Memória visual, memória verbal e memória de curto prazo, com maior impacto em casos moderados a graves.
3) O IAH é suficiente para avaliar risco cognitivo?
Não. Estudos indicam que a intensidade da hipóxia noturna é mais fortemente associada às alterações cognitivas do que o IAH.
4) Quais fatores adicionais influenciam o comprometimento da memória?
Sonolência diurna excessiva, idade avançada, menor escolaridade e genótipo ApoEε4.
5) Como o CPAP impacta a memória?
O tratamento com CPAP pode melhorar a memória, inclusive em curto prazo, mas os benefícios dependem da adesão regular e adequada.
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Fontes:
- Zhang X, Xu H, Yin S, Gozal D, Khalyfa A. Obstructive sleep apnea and memory impairments: Clinical characterization, treatment strategies, and mechanisms. Sleep Med Rev. 2025; 81: 102092.
- Liguori C. Obstructive sleep apnea is a common diagnosis in patients admitted at the memory clinic: Please screen for it! J Alzheimers Dis. 2025; 104 (1): 40-42.
- Rasch B, Born J. About sleep's role in memory. Physiol Rev. 2013; 93 (2): 681-766.
- Balthazar FM, Moraes WADS, Hunter JR, Prado GFD, Carvalho LBC. Interaction between apolipoprotein E genotypes, excessive daytime sleepiness, and cognitive function in obstructive sleep apnea patients. Arq Neuropsiquiatr. 2022; 80 (11): 1104-1111.
- D'Rozario AL, Hoyos CM, Wong KKH, et al. Improvements in cognitive function and quantitative sleep electroencephalogram in obstructive sleep apnea after six months of continuous positive airway pressure treatment. Sleep. 2022; 45 (6).
- Vaioli G, Tagini S, Scarpina F, et al. Short-Term Benefits of Continuous Positive Airway Pressure Treatment on Cognition in the Obstructive Sleep Apnea Syndrome: A Retrospective Study. Brain Sci. 2023; 13 (1).
