Polissonografia na prática: além do IAH para diagnóstico e manejo da AOS
A polissonografia (PSG) é o exame padrão-ouro para o diagnóstico da apneia obstrutiva do sono (AOS). Isso significa que não existe nenhum outro exame que tenha sido tão estudado e com resultados tão eficazes.1 Muitas vezes a atenção aos resultados da polissonografia fica direcionada para o índice de apneias-hipopneias por hora de sono (IAH), saturação de oxigênio mínima e eficiência do sono. Mas, será que este exame está sendo interpretado da forma correta? E, sobretudo, será que alguns parâmetros não estão sendo supervalorizados em detrimento de outros que podem ter maior relevância clínica?
Por que não olhar apenas o IAH?
Embora amplamente utilizado, o IAH não captura as diferenças individuais de pacientes dentro de uma mesma faixa de gravidade da AOS. Dois indivíduos com o mesmo IAH podem apresentar quadros clínicos bastante distintos, com diferentes repercussões para a saúde.2; 3 Há pacientes considerados “leves” pelo IAH, mas que exibem grande número de movimentos periódicos de membros (PLMs), comprometendo a qualidade do sono. Outros concentram eventos respiratórios predominantemente em sono REM, acompanhados de hipoxemia significativa, o que aumenta o risco cardiovascular.4 Há ainda aqueles cujo principal marcador é a fragmentação do sono, com múltiplos despertares, mas sem dessaturação relevante (quadro que se traduz em fadiga e sono não reparador).2; 3
Parâmetros que agregam valor clínico
A análise detalhada da polissonografia (PSG) se mostra valiosa, pois permite inferir características fisiológicas que tem implicações diretas no manejo terapêutico. Um exemplo são aqueles pacientes que apresentam um limiar de despertar baixo, ou seja, acordam facilmente diante de estímulos durante o sono, o que pode dificultar a adaptação ao uso do CPAP. Nesses casos, o processo de dessensibilização à terapia pressórica pode ser beneficiado pelo uso temporário de hipnóticos, já que essas medicações ajudam a reduzir a fragmentação do sono e a manter o paciente dormindo por mais tempo, mesmo diante de pequenas sensações desconfortáveis iniciais relacionadas ao equipamento.5 Por outro lado, quando o perfil clínico aponta para um limiar de despertar mais elevado (evidenciado, por exemplo, por episódios de dessaturação importantes e prolongados), a adaptação costuma ser mais favorável, sobretudo com a utilização de modos automáticos de CPAP.6
Personalização do manejo com base na PSG
A individualização do tratamento conforme as características de cada paciente também se aplica a situações específicas, como nos casos em que a apneia ocorre predominantemente em posição supina, nos quais a terapia posicional deve ser incorporada ao plano terapêutico.7 E nessa mesma lógica de personalização, pacientes que demonstram na polissonografia alta sensibilidade a pequenas variações de dióxido de carbono (alto loop gain), apresentando eventos respiratórios centrais sem outra causa identificável, podem responder melhor ao CPAP com uma estreita faixa de variabilidade pressórica, para evitar o agravamento da instabilidade ventilatória.6; 8; 9
Fenótipos e endótipos: além do exame confirmatório
Assim, a polissonografia deve ser entendida não apenas como um exame confirmatório, mas como uma ferramenta de estratificação de risco e de individualização terapêutica. Mais do que o IAH isoladamente, é fundamental considerar a ampla heterogeneidade fenotípica dos pacientes, influenciada por fatores como gênero, idade, índice de massa corporal, grau de sonolência, comorbidades e carga hipóxica. Além disso, o exame pode fornecer pistas valiosas sobre endótipos específicos, como características anatômicas da via aérea superior, alterações no recrutamento dos músculos dilatadores da faringe, instabilidade do controle ventilatório ou limiar de despertar reduzido.
Incorporar a análise de fenótipos e endótipos ao laudo da PSG amplia substancialmente a compreensão clínica, deslocando a pergunta central de “o paciente tem apneia?” para “que tipo de apneia este paciente apresenta?”.10; 11
Essa mudança de perspectiva é essencial para avançar em direção a um cuidado mais individualizado, com maior potencial de adesão ao tratamento e impacto positivo nos desfechos de saúde.
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Perguntas frequentes sobre polissonografia
1) O que é polissonografia?
É o exame padrão-ouro para diagnóstico da apneia obstrutiva do sono (AOS), registrando respiração, oxigenação e arquitetura do sono durante a noite.
2) Por que não olhar apenas o IAH?
O índice de apneia-hipopneia (IAH) não capta diferenças individuais. Dois pacientes com o mesmo IAH podem ter perfis clínicos distintos, como fragmentação do sono, eventos concentrados em sono REM ou hipoxemia significativa.
3) Quais parâmetros adicionais devem ser considerados?
• Fragmentação do sono e despertares frequentes;
• Eventos respiratórios predominantes em sono REM;
• Saturação mínima de oxigênio;
• Eficiência do sono.
4) Como a PSG contribui para personalizar o tratamento?
Permite identificar características que orientam ajustes no CPAP e estratégias complementares, considerando o contexto clínico e anatômico do paciente.
5) Qual é a importância de interpretar a PSG além do exame confirmatório?
A análise detalhada ajuda a estratificar risco e individualizar a terapia, deslocando a pergunta de “o paciente tem apneia?” para “que tipo de apneia este paciente apresenta?”.
6) A interpretação completa da PSG influencia a adesão ao tratamento?
Sim. Ao orientar escolhas personalizadas, a PSG pode favorecer a adesão ao CPAP e melhorar os desfechos clínicos.
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Fontes:
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