Titulação com CPAP automático domiciliar, split-night ou de noite inteira em laboratório: o que muda na prática clínica?
Para que o tratamento da apneia obstrutiva do sono (AOS) com pressão positiva contínua (CPAP) seja efetivo, é essencial determinar com precisão a menor pressão capaz de manter a via aérea pérvia durante toda a noite. A definição precisa dessa pressão, etapa conhecida como titulação, é o que garante a eficácia e a segurança terapêutica.1
Método padrão-ouro e suas limitações
Tradicionalmente, a titulação padrão-ouro é realizada em laboratório, por meio de polissonografia completa com ajuste pressórico manual durante toda a noite, conduzida por técnico de sono treinado. Contudo, o método é trabalhoso, requer duas noites de estudo (diagnóstico e titulação) e implica custos elevados, além da limitação de leitos disponíveis.2
Alternativas investigadas
Em busca de métodos mais acessíveis e práticos, alternativas como o exame split-night (onde metade da noite é utilizada para diagnóstico, e a outra metade para a titulação) e a titulação domiciliar com CPAP automático têm sido investigadas.2-4
O estudo de Park et al. (2025)
O estudo prospectivo conduzido por Park e colaboradores (2025) teve como objetivo comparar, em uma mesma amostra de pacientes, as pressões terapêuticas de CPAP obtidas por esses três métodos, identificando também quais fatores poderiam estar associados às diferenças observadas entre eles. Foram inicialmente recrutados 74 pacientes adultos com suspeita de AOS, dos quais apenas 29 completaram todas as etapas e preencheram os critérios de inclusão. Todos apresentavam AOS moderada ou grave e utilizaram o mesmo modelo de CPAP automático em todas as fases de titulação. O protocolo incluiu, em sequência, a realização de exame split-night, seguida de um período de duas a três semanas de titulação domiciliar com CPAP automático e, finalmente, uma titulação completa em laboratório.1
Resultados principais
Os resultados mostraram que as pressões médias obtidas foram de 8 cmH₂O no exame split-night e 9 cmH₂O na titulação de noite inteira em laboratório. Na titulação com CPAP automático a média pressórica foi de 8,1 cmH₂O, e o valor correspondente ao percentil 90 foi de 9,6 cmH₂O.
Todas as pressões correlacionaram-se significativamente com os valores de titulação de noite inteira em laboratório (p < 0,05). De forma consistente entre os participantes, a titulação split-night tendeu a subestimar a pressão necessária, enquanto a titulação domiciliar com CPAP automático (particularmente o valor do percentil 90) tendeu a superestimá-la.1
Fatores associados às discrepâncias
Ao investigar as causas dessas discrepâncias, os autores identificaram duas variáveis significativas associadas com as diferenças de pressão entre a titulação de noite inteira e a titulação domiciliar com CPAP automático:
Desvio de septo nasal e índice de apneia-hipopneia (IAH) elevado. Na análise multivariada, o desvio de septo nasal aumentou em aproximadamente 16 vezes a chance de diferença significativa entre a titulação de noite inteira em laboratório e a titulação domiciliar com CPAP automático (OR = 16,634; p = 0,018). Além disso, cada unidade adicional no IAH elevou em cerca de 6% a probabilidade de discrepância entre os métodos (OR = 1,064; p = 0,027).1 A partir desses achados, os autores enfatizam a importância de individualizar a escolha do método de titulação. E sugerem que em casos moderados de AOS, a titulação domiciliar com CPAP automático ou a titulação split-night poderiam ser opções seguras e eficazes, oferecendo vantagens logísticas e econômicas. Já em pacientes com obstrução nasal relevante ou grande variabilidade nos eventos respiratórios, a titulação completa em laboratório permanece como o método mais preciso e controlado.1
Limitações do estudo
O estudo apresenta limitações importantes, como o número reduzido de participantes e o perfil homogêneo da amostra (todos asiáticos). Além disso, fatores como variações noturnas na gravidade da apneia, posição corporal, congestão nasal transitória e diferenças entre o ambiente domiciliar e o laboratório podem ter influenciado os resultados. Ainda assim, a pesquisa de Park e colaboradores (2025) foi pioneira ao comparar, de forma prospectiva e dentro do mesmo grupo de indivíduos, as pressões obtidas por três métodos de titulação. Os achados sustentam que tanto a titulação split-night quanto a domiciliar com CPAP automático podem representar alternativas viáveis à titulação laboratorial completa, especialmente em contextos com acesso restrito a laboratórios de sono.1
Conclusão
Em síntese, a precisão da titulação não depende exclusivamente do método empregado, mas do contexto clínico e anatômico de cada paciente. A escolha adequada pode otimizar o início da terapia, reduzir custos e, sobretudo, favorecer a adesão ao CPAP, que permanece o pilar mais efetivo no manejo da apneia obstrutiva do sono.
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Perguntas frequentes sobre titulação de CPAP
1) O que é titulação de CPAP?
É a determinação da menor pressão capaz de manter a via aérea pérvia durante toda a noite, etapa central para viabilizar a terapia com CPAP.
2) Quais são os principais métodos de titulação descritos?
3) O que caracteriza o protocolo split-night?
É um exame dividido em duas fases na mesma noite: diagnóstico na primeira parte e ajuste do CPAP na segunda.
4) Em quais situações a titulação completa em laboratório pode ser preferida?
Decisão influenciada por fatores anatômicos e gravidade. Casos com obstrução nasal relevante tendem a demandar titulação completa em laboratório.
5) A precisão da titulação depende só do método?
Não. Depende do contexto clínico e anatômico do paciente. A escolha adequada pode otimizar o início da terapia, reduzir custos e favorecer a adesão.
6) Qual objetivo do estudo citado (Park et al., 2025)?
O estudo prospectivo comparou, na mesma amostra, as pressões terapêuticas obtidas pelos três métodos (laboratorial noite inteira, split‑night e domiciliar com CPAP automático), avaliando fatores associados às diferenças observadas.
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Fontes:
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