Distúrbios Respiratórios do Sono na Gravidez: Apneia Obstrutiva do Sono e Implicações Materno-Fetais

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Distúrbios respiratórios do sono na gravidez e suas implicações para a saúde materna e o desenvolvimento infantil

Os distúrbios respiratórios do sono (DRS) durante a gestação têm recebido atenção crescente na literatura científica, à medida que se acumulam evidências de sua elevada prevalência e de sua associação com desfechos maternos, fetais e neonatais adversos. Mesmo que a gravidez seja tradicionalmente considerada um período fisiológico, as transformações hormonais, anatômicas e funcionais que ocorrem ao longo dos trimestres criam um contexto particularmente vulnerável ao surgimento ou à piora de alterações respiratórias durante o sono, com destaque para a para a apneia obstrutiva do sono (AOS).1

Alterações fisiológicas da gestação e impacto no sistema respiratório

No sistema respiratório, estudos demonstram que o estrogênio contribui para edema de mucosas e aumento da resistência das vias aéreas superiores durante a gestação². Associam-se a isso o ganho ponderal, a retenção hídrica e a redução dos volumes pulmonares funcionais com o avanço da gravidez, compondo um conjunto de fatores que aumentam a suscetibilidade à obstrução das vias aéreas, especialmente no terceiro trimestre gestacional³.

Essas alterações reforçam a importância de considerar o sono como parte da avaliação clínica global da gestante, sobretudo em contextos de maior risco.

Prevalência e fatores de risco dos distúrbios respiratórios do sono na gestação

Do ponto de vista epidemiológico, a prevalência de DRS na gravidez varia amplamente, dependendo do método diagnóstico, do trimestre avaliado e das características da população estudada. Estudos baseados em polissonografia ou poligrafia sugerem prevalência média próxima de 20%, com predomínio de formas leves, embora taxas superiores a 50% tenham sido descritas em gestações de alto risco¹.

O índice de massa corporal emerge de forma consistente como o principal fator de risco, enquanto a idade materna apresenta influência menos pronunciada após ajustes para adiposidade e comorbidades. Condições como diabetes mellitus gestacional e distúrbios hipertensivos da gestação também se associam a maior prevalência de DRS, reforçando a interrelação entre alterações metabólicas, cardiovasculares e respiratórias durante a gravidez¹˒⁴.

Associações entre DRS e morbidade materna

A relevância clínica dos DRS na gestação se amplia quando se analisam suas associações com a morbidade materna. A literatura descreve relação consistente entre AOS e maior risco de hipertensão gestacional, pré-eclâmpsia e emergências hipertensivas, mesmo após ajustes para obesidade e outros fatores de confusão³.

Os mecanismos fisiopatológicos propostos incluem hipóxia intermitente, estresse oxidativo, ativação inflamatória sistêmica e disfunção endotelial, processos que se sobrepõem à fisiopatologia das doenças hipertensivas da gestação³. Além disso, há evidências de associação entre DRS e alterações subclínicas, como perda do descenso noturno da pressão arterial e aumento da rigidez arterial, sugerindo impacto cardiovascular já durante a gravidez.

Impacto metabólico dos distúrbios respiratórios do sono no período gestacional

Os DRS também se associam a alterações metabólicas relevantes no período gestacional. Estudos observacionais e meta-análises indicam maior risco de diabetes mellitus gestacional em mulheres com AOS, bem como pior controle glicêmico noturno proporcional à gravidade do distúrbio respiratório³˒⁴.

Aqui novamente a hipóxia intermitente e a fragmentação do sono parecem contribuir para resistência insulínica, disfunção pancreática e ativação de vias inflamatórias, reforçando a hipótese de que os DRS atuem como fator agravante em um período já caracterizado por resistência insulínica fisiológica.3,4

Desfechos fetais, neonatais e possíveis repercussões a longo prazo

O impacto dos DRS não se restringe à saúde materna. Evidências indicam associação com parto prematuro, restrição de crescimento fetal, maior taxa de cesarianas e internação em unidade neonatal¹˒³. A hipóxia materna recorrente pode comprometer a perfusão uteroplacentária, a oferta de oxigênio e nutrientes ao feto, além de desencadear inflamação placentária.

Mais recentemente, estudos passaram a explorar os possíveis efeitos de longo prazo da exposição intrauterina aos DRS maternos. Um estudo piloto de coorte, com acompanhamento até os três anos de idade, encontrou associação entre maior índice de apneia-hipopneia materno durante a gestação e escores mais baixos de desenvolvimento cognitivo e de linguagem na infância precoce, sugerindo um possível efeito dose-dependente. Embora esses achados devam ser interpretados com cautela, devido ao pequeno tamanho amostral, eles levantam questões relevantes para profissionais que acompanham gestantes e crianças, ao sugerirem que o impacto dos DRS pode ultrapassar o período perinatal. ⁵

Rastreamento e abordagens terapêuticas: desafios atuais

Diante desse conjunto de evidências, o sono emerge como um fator potencialmente modificável na gestação, com implicações relevantes para a redução da morbidade materna e possivelmente para a saúde infantil. Apesar disso, o rastreamento sistemático de DRS ainda não integra a rotina do pré-natal na maioria dos contextos. Questionários clínicos tradicionais apresentam desempenho limitado em gestantes, o que tem impulsionado o interesse por métodos objetivos mais acessíveis, como a poligrafia domiciliar, especialmente em mulheres com fatores de risco¹˒⁵.

No que se refere ao manejo, dados observacionais e estudos iniciais sugerem que a terapia com pressão positiva nas vias aéreas pode melhorar parâmetros hemodinâmicos e possivelmente reduzir a gravidade de distúrbios hipertensivos da gestação em mulheres com AOS moderada a grave³. Embora estudos randomizados de grande porte ainda estejam em andamento, esses achados reforçam a importância de uma abordagem multidisciplinar, envolvendo obstetrícia, medicina do sono, pneumologia e outras áreas da saúde³.

Considerações finais

Os distúrbios respiratórios do sono na gravidez constituem uma condição prevalente, frequentemente subdiagnosticada e associada a implicações relevantes para a saúde materna, fetal e possivelmente para o desenvolvimento infantil. Para os profissionais de saúde que atuam no cuidado do sono, reconhecer a gestação como um período-chave para identificação e manejo desses distúrbios amplia as possibilidades de intervenção e prevenção.

A integração do sono às estratégias de cuidado pré-natal, à luz das evidências disponíveis, representa um passo importante na promoção de desfechos mais favoráveis para mães e filhos, tanto no curto quanto no longo prazo¹˒³,⁵.


FAQ

1. Por que os distúrbios respiratórios do sono ganham relevância durante a gravidez?

De acordo com a literatura, a gestação envolve transformações hormonais, anatômicas e funcionais que criam um ambiente particularmente vulnerável ao surgimento ou à piora de alterações respiratórias durante o sono, com destaque para a apneia obstrutiva do sono.

2. Quais alterações fisiológicas da gestação contribuem para maior suscetibilidade a alterações respiratórias durante o sono?

Estudos demonstram que o estrogênio contribui para edema de mucosas e aumento da resistência das vias aéreas superiores. Além disso, o ganho ponderal, a retenção hídrica e a redução dos volumes pulmonares funcionais ao longo da gravidez aumentam a susceptibilidade à obstrução das vias aéreas, especialmente no terceiro trimestre.

3. Qual é a prevalência estimada dos distúrbios respiratórios do sono na gravidez?

A prevalência de DRS na gestação varia amplamente conforme o método diagnóstico, o trimestre avaliado e o perfil da população estudada. Estudos com polissonografia ou poligrafia sugerem prevalência média próxima de 20%, com predomínio de formas leves, podendo ser superior em gestações de alto risco.

4. Quais condições maternas estão associadas a maior prevalência de DRS durante a gestação?

O índice de massa corporal é descrito como o principal fator de risco. Além disso, condições como diabetes mellitus gestacional e distúrbios hipertensivos da gestação estão associadas a maior prevalência de distúrbios respiratórios do sono.

5. Quais são as principais implicações maternas e fetais associadas aos distúrbios respiratórios do sono na gravidez?

A literatura descreve associação entre DRS e maior risco de hipertensão gestacional, pré-eclâmpsia e alterações cardiovasculares subclínicas na mãe. Em relação aos desfechos fetais e neonatais, há associação com parto prematuro, restrição de crescimento fetal, maior taxa de cesarianas e internação em unidade neonatal.


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Fontes

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    • Bourjeily G, Izci-Balserak B, Habr N, Louis J, Dominguez J. Sleep is an opportunity to reduce pregnancy-related severe morbidity and mortality. Obstet Med. 2025.
    • Takenouchi Y, Hosomichi J, Suzuki T, et al. Preliminary Evidence Linking Maternal Sleep-Disordered Breathing During Pregnancy to Early Childhood Development. Children (Basel). 2025; 12 (12).

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Citations

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