Do cuidado fragmentado à integração de saberes: multidisciplinaridade, interdisciplinaridade e transdisciplinaridade na área do sono
Por que integrar saberes na medicina do sono?
Os distúrbios do sono representam uma área clínica marcada pela complexidade e pela necessidade de integração entre diferentes saberes.
Alterações do sono raramente se limitam a um único sistema fisiológico ou a uma única dimensão clínica, envolvendo repercussões respiratórias, cardiovasculares, metabólicas, neurológicas, comportamentais e psicossociais.
Diante dessa multiplicidade de fatores, modelos de cuidado baseados em uma única especialidade mostram-se progressivamente insuficientes para atender às demandas reais dos pacientes.1
Conceitos fundamentais
A simples presença de múltiplas especialidades não garante, por si só, um cuidado integrado. A literatura diferencia claramente os conceitos de multidisciplinaridade, interdisciplinaridade e transdisciplinaridade, entendendo-os como níveis distintos de colaboração entre disciplinas.2,3
Multidisciplinaridade
No modelo multidisciplinar, profissionais de diferentes áreas atuam de forma paralela ou sequencial, mantendo seus limites epistemológicos e suas formas próprias de tomada de decisão.
Interdisciplinaridade
A interdisciplinaridade, por sua vez, pressupõe um nível mais elevado de integração, com compartilhamento de objetivos, construção conjunta de planos terapêuticos e corresponsabilização pelos desfechos clínicos.1
Transdisciplinaridade
A transdisciplinaridade propõe uma integração ainda mais profunda, com fronteiras menos rígidas entre disciplinas e incorporação de saberes diversos para lidar com problemas complexos que não podem ser adequadamente compreendidos a partir de um único campo do conhecimento.2
Limitações do modelo multidisciplinar
Centros multidisciplinares ampliam o acesso a diferentes modalidades terapêuticas e representam avanço frente ao cuidado isolado. Porém, múltiplos profissionais ou especialidades em um mesmo serviço não asseguram comunicação efetiva ou integração real. Em muitos casos, as atuações permanecem paralelas, com trocas informativas e decisões fragmentadas.
A integração clinicamente relevante ocorre quando a comunicação se torna estratégica, articulando perspectivas na construção conjunta do plano terapêutico — aspecto crucial em pacientes com apneia obstrutiva do sono, baixa adesão ao CPAP ou múltiplas comorbidades.⁴
Benefícios da colaboração interdisciplinar
Ambientes de cuidado colaborativo interdisciplinar estão associados à redução de erros, maior eficiência assistencial, melhora da satisfação profissional e melhores desfechos clínicos.
Estudos realizados em ambientes de alta complexidade demonstram que a colaboração entre diferentes profissionais favorece processos mais seguros, com maior clareza de papéis, comunicação mais efetiva e melhor coordenação das ações terapêuticas.1
Na medicina do sono, esses benefícios tornam-se especialmente relevantes diante da cronicidade dos distúrbios do sono e da necessidade de acompanhamento longitudinal. Ainda assim, mesmo modelos colaborativos podem resultar em fragmentação assistencial quando não há articulação efetiva entre os profissionais envolvidos.2,4
Barreiras à transdisciplinaridade
Apesar das evidências favoráveis, a implementação de modelos colaborativos de caráter transdisciplinar enfrenta barreiras importantes:
Além disso, divergências na formação e na linguagem técnica entre disciplinas podem dificultar o diálogo e a construção de objetivos comuns, particularmente na ausência de uma cultura institucional que valorize a colaboração.1,2
Como superar os desafios?
Superar essas barreiras exige mais do que a reorganização estrutural dos serviços. É necessária uma mudança cultural que reconheça que nenhum profissional, de forma isolada, é capaz de responder à complexidade dos problemas de saúde contemporâneos.2,4
A transição do cuidado fragmentado para o cuidado centrado no paciente passa, portanto, pela valorização da interdisciplinaridade e, em casos específicas, da transdisciplinaridade. Esses modelos permitem o compartilhamento de responsabilidades, o alinhamento de expectativas e a construção de estratégias terapêuticas mais coerentes com a complexidade clínica apresentada.1-4
Por que investir em modelos integrados?
Na área do sono, investir em modelos integrados de cuidado não representa apenas um avanço organizacional, mas um passo essencial para qualificar a assistência, otimizar recursos e melhorar os resultados clínicos a longo prazo.1-4
Perguntas frequentes
1) Qual a diferença entre multidisciplinaridade, interdisciplinaridade e transdisciplinaridade?
A multidisciplinaridade reúne diferentes especialidades atuando em paralelo ou em sequência; a interdisciplinaridade integra objetivos e planos terapêuticos de forma compartilhada; e a transdisciplinaridade promove uma integração ainda mais profunda, com fronteiras menos rígidas entre os campos do conhecimento.
2) Por que modelos centrados em uma única especialidade são insuficientes na medicina do sono?
Porque os distúrbios do sono envolvem repercussões respiratórias, cardiovasculares, metabólicas, neurológicas, comportamentais e psicossociais, exigindo integração de saberes para responder à complexidade clínica apresentada.
3) Centros multidisciplinares garantem cuidado integrado?
Nem sempre. A presença de múltiplos profissionais amplia o acesso, mas a integração clinicamente relevante depende de comunicação estratégica e construção conjunta do plano terapêutico.
4) Em quais situações a integração se torna crucial?
Em casos como apneia obstrutiva do sono, baixa adesão ao CPAP e presença de múltiplas comorbidades, quando decisões fragmentadas podem comprometer desfechos clínicos.
5) Quais benefícios são associados à colaboração interdisciplinar?
Redução de erros, maior eficiência assistencial, maior satisfação profissional e melhora dos desfechos, com clareza de papéis, comunicação efetiva e melhor coordenação terapêutica.
6) Quais barreiras dificultam a implementação da transdisciplinaridade?
Falhas de comunicação, ambiguidade de papéis, diferenças de valores profissionais, limitação de tempo, estruturas organizacionais inadequadas e divergências de formação e linguagem técnica.
7) O que é necessário para superar essas barreiras?
Uma mudança cultural que reconheça que nenhum profissional, de forma isolada, responde à complexidade dos problemas de saúde; valorização da interdisciplinaridade e, quando indicado, da transdisciplinaridade.
8) Por que investir em modelos integrados de cuidado na área do sono?
Para qualificar a assistência, otimizar recursos e melhorar os resultados clínicos no longo prazo, alinhando responsabilidades e expectativas ao cuidado centrado no paciente.
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Fontes:
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