Apneia do sono, CPAP e ritmo circadiano: como tratar dia e noite

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Apneia do sono, CPAP e o relógio biológico: o que o dia tem a ver com a noite

Como a apneia do sono afeta o ritmo circadiano

Na apneia obstrutiva o sono (AOS), a repetição de quedas de oxigênio e despertares fragmenta o sono e desorganiza sinais fisiológicos que deveriam seguir um padrão estável ao longo de 24 horas.

Essa instabilidade repercute em alterações como perda da queda noturna adequada da pressão arterial, redução da amplitude do ciclo sono–vigília e perturbação da oscilação normal de genes circadianos, que deixam de acompanhar o ritmo esperado entre dia e noite.1

Essas mudanças impactam diretamente na saúde global, favorecendo fadiga persistente, pior desempenho cognitivo, maior risco cardiovascular e desregulação metabólica.

O papel da hipóxia e do HIF-1α

Um mecanismo central na ligação entre a AOS e a desorganização do ritmo circadiano é o fator induzido por hipóxia denominado HIF-1α, uma proteína que atua como sensor de oxigênio nas células. Em condições normais, ela é rapidamente degradada, mas durante os episódios repetidos de hipoxemia característicos da AOS, sua degradação é interrompida. Ao se acumular, o HIF-1α:

  • ativa genes envolvidos em inflamação, metabolismo e estresse oxidativo,
  • interfere na expressão de componentes essenciais do relógio biológico.

Assim, a hipóxia recorrente alimenta um ciclo de desorganização circadiana, enquanto o próprio desalinhamento do ritmo interno favorece respostas inflamatórias mais intensas e maior vulnerabilidade às consequências sistêmicas da AOS.1,2

Por que o desalinhamento agrava a apneia?

Sabe-se que diversos componentes envolvidos na estabilidade da respiração durante o sono apresentam modulação circadiana, incluindo o controle neuromuscular das vias aéreas superiores e os mecanismos centrais de regulação ventilatória.

Quando o relógio biológico perde sua organização temporal, esses sistemas tendem a operar de forma menos estável, o que pode aumentar a vulnerabilidade ao colapso da via aérea e à variabilidade da resposta ventilatória, especialmente durante transições entre estágios de sono.1,2

CPAP: mais que uma terapia respiratória

O CPAP tem papel essencial, principalmente para indivíduos com apneia moderada e grave. Ao impedir o colapso da via aérea e reduzir imediatamente a hipóxia intermitente, ele age diretamente sobre o gatilho que ativa repetidamente o HIF-1α. A estabilização da respiração e a diminuição dos despertares promovem um ambiente mais favorável para que os ritmos circadianos recuperem parte de sua regularidade. Evidências mostram que o CPAP melhora a organização do ciclo descanso–atividade, favorece padrões mais estáveis de pressão arterial e pode restaurar a expressão de genes circadianos alterados. Mudanças em CLOCK e PER1 (que são genes centrais e essenciais do relógio biológico) são observadas até mesmo após uma única noite de tratamento, indicando que a redução da hipóxia já repercute rapidamente sobre o sistema temporal interno.3

Por que só o CPAP não basta?

Mesmo com o uso consistente do CPAP, muitos pacientes continuam relatando cansaço, sonolência residual ou percepção limitada de benefício. Isso ocorre porque o tratamento noturno não é capaz, por si só, de reorganizar um relógio desestruturado ao longo do dia. Se o paciente permanece exposto a luz inadequada, horários irregulares de alimentação ou longos períodos de inatividade, o corpo continua recebendo sinais conflitantes que dificultam a estabilização dos ritmos internos.4

Higiene circadiana: o complemento necessário

Nesse contexto, a respiração pode estar corrigida pelo CPAP, mas a fisiologia circadiana permanece em um estado mais vulnerável, reduzindo a potência total da terapia.

É nesse ponto que a higiene circadiana se torna fundamental. Ao contrário da higiene do sono, que se concentra apenas no período próximo ao adormecer, a higiene circadiana envolve o dia inteiro. A exposição à luz natural pela manhã é um dos marcadores mais poderosos para reforçar o início do dia e aumentar a amplitude dos ritmos internos. Horários regulares de refeições ajudam a estabilizar os relógios periféricos ligados ao metabolismo, reduzindo a dessincronização que ocorre quando se come tarde da noite. A prática de atividade física em horários apropriados melhora o alerta diurno e fortalece a regulação autonômica. Esses sinais, quando organizados, criam um ambiente fisiológico no qual o CPAP pode expressar todo o seu potencial terapêutico.4

CPAP + higiene circadiana: uma dupla poderosa

Combinados, CPAP e higiene circadiana atuam em vias complementares: um corrige o fluxo de ar e reduz a hipóxia (CPAP), enquanto o outro organiza o tempo biológico no qual o sono se insere (higiene circadiana).

Quando o relógio interno opera de forma coerente, o sono se torna mais profundo e contínuo, a resposta ventilatória mais estável, e o organismo mais resiliente à desestabilização respiratória. Isso se traduz em melhores resultados clínicos, maior adesão e maior sensação subjetiva de recuperação ao acordar .⁴

Conclusão

Diante desse panorama, fica claro que cuidar da AOS não significa apenas tratar o sono, mas também tratar o dia. Orientar luz, horários, movimento e consistência comportamental faz parte de uma abordagem que amplia a eficácia do CPAP e auxilia o paciente a reconstruir a harmonia fisiológica que sustenta sua saúde ao longo das 24 horas. Quando o ritmo volta a se alinhar, o tratamento flui com mais naturalidade, e a sensação de bem-estar começa a se manifestar não apenas durante a noite, mas durante todo o dia.

 


 

Perguntas frequentes

1) Como a apneia do sono afeta o relógio biológico?
Ela fragmenta o sono e desorganiza sinais fisiológicos, alterando pressão arterial, ciclo sono–vigília e expressão de genes circadianos.

2) Qual é o papel do HIF-1α na apneia do sono?
É uma proteína que, sob hipóxia, ativa genes inflamatórios e interfere no relógio biológico, agravando a desorganização circadiana.

3) O CPAP ajuda a restaurar ritmos circadianos?
Sim. Ele reduz hipóxia, estabiliza respiração e melhora a expressão de genes do relógio biológico, como CLOCK e PER1.

4) Por que só o CPAP não resolve o desalinhamento circadiano?
Porque fatores diurnos como luz, alimentação e atividade física continuam influenciando o ritmo interno.

5) O que é higiene circadiana e por que é importante?
É um conjunto de práticas diurnas (luz, horários regulares, movimento) que reforçam a organização temporal do organismo e potencializam o efeito do CPAP.

 

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Fontes:

  1. Targa ADS, Sánchez-de-la-Torre M, Barbé F. A Timely Call to Understand the Link Between Obstructive Sleep Apnoea and Circadian Disruption. Arch Bronconeumol. 2025.
  2. Koritala BSC, Conroy Z, Smith DF. Circadian Biology in Obstructive Sleep Apnea. Diagnostics (Basel). 2021; 11 (6).
  3. Gabryelska A, Turkiewicz S, Gajewski A, et al. Assessment of continuous positive airway pressure effect on the circadian clock signaling pathway in obstructive sleep apnea patients. Sci Rep. 2025; 15 (1): 11273.
  4. Moreno CRC, Raad R, Gusmão WDP, et al. Are We Ready to Implement Circadian Hygiene Interventions and Programs? Int J Environ Res Public Health. 2022; 19 (24).

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Citations

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2

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BURGARD, S. A.; AILSHIRE, J. A. Gender and Time for Sleep among U.S. Adults. Am Sociol Rev, v. 78, n. 1, p. 51-69, Feb 2013. ISSN 0003-1224. Disponível em: < https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/25237206 >.

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FATIMA, Y. et al. Exploring Gender Difference in Sleep Quality of Young Adults: Findings from a Large Population Study. Clin Med Res, v. 14, n. 3-4, p. 138-144, Dec 2016. ISSN 1554-6179. Disponível em: < https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/28188139 >.

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