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October 06, 2025

Homens e mulheres: como o gênero influencia o sono e o tratamento dos distúrbios do sono

Dicas para dormir Homens x mulheres no sono Professional da saúde
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Dormir bem é essencial para a saúde de homens e mulheres. Entretanto, nas últimas décadas, pesquisas têm destacado diferenças intrigantes entre os gêneros em vários aspectos do sono. Diferenças que, muito provavelmente, contribuem para as disparidades na prevalência de distúrbios do sono e comorbidades entre os sexos.1

Embora os mecanismos subjacentes a essas diferenças ainda não sejam totalmente compreendidos, algumas explicações já foram propostas. Uma delas diz respeito aos efeitos organizacionais dos hormônios sexuais, que desempenham um papel vital na regulação do sono.1; 2

Outra possível explicação envolve as diferenças na sincronização temporal do organismo. As mulheres tendem a ter períodos circadianos mais curtos do que os homens, o que as torna mais propensas a sofrer distúrbios relacionados ao ritmo circadiano.2 Além disso, ainda que influenciadas por fatores ambientais e psicossociais, essas disparidades de gênero também parecem depender do complemento cromossômico sexual (XX ou XY).1

Quando analisamos quantidade e qualidade do sono, estudos mostram que as mulheres tendem a dormir um pouco mais, demoram mais para adormecer e relatam pior qualidade do sono, especialmente maior fragmentação, em comparação aos homens (Tabela 1).3; 4; 5; 6

Tabela 1. Diferenças de gênero na quantidade e qualidade do sono3; 4; 5; 6

Gênero

 

Homens

Mulheres

Duração total do sono (objetiva)

Dormem menos, apresentam maior declínio do sono NREM com a idade

Dormem aproximadamente de 6 a 28 minutos a mais por noite, tendem a apresentar mais sono REM

Latência para dormir

Latência menor em todas as idades

Maior latência (demoram mais para adormecer), especialmente após os 40 anos

Qualidade subjetiva do sono (PSQI)

Melhor percepção subjetiva do sono e menos queixas de insônia

Relatam pior qualidade de sono: mais despertares, sono não restaurador

Paradoxo duração × qualidade

Dormem menos, mas percebem seu sono como mais satisfatório

Apesar de dormirem mais objetivamente, relatam sono mais fragmentado e de pior qualidade subjetiva

Pesquisas sobre características fisiológicas e clínicas do sono também apontam que o declínio da qualidade do sono nas mulheres é mais acentuado durante a transição menopausal. Elas tendem a ter um cronotipo mais matutino do que os homens, e suas oscilações hormonais impactam muito mais no sono do que o declínio hormonal observado nos homens. É interessante notar que os homens apresentam mais frequentemente ronco crônico, enquanto as mulheres são mais propensas à insônia, síndrome das pernas inquietas e fragmentação do sono na menopausa (Tabela 2).2; 7

Tabela 2. Características fisiológicas e clínicas do sono por gênero2; 7

Gênero

 

Homens

Mulheres

Sono com o envelhecimento

A deterioração do sono é mais lenta e gradual com a idade

O declínio da qualidade do sono é mais acentuado antes dos 60 anos, especialmente na transição menopausal

Cronotipo e ritmo circadiano

Tendência ao cronotipo vespertino, com maior atraso de fase após os 40 anos

Tendem a ter cronotipo mais matutino e período circadiano mais curto

Influência hormonal

Testosterona tem influência mais estável e discreta no sono do homem

Oscilações de estrogênio e progesterona impactam fortemente o sono (tensão pré-menstrual, gravidez, menopausa)

Distúrbios prevalentes

Maior prevalência de apneia obstrutiva do sono (AOS) e ronco crônico

Maior risco de insônia, síndrome das pernas inquietas, fragmentação do sono na menopausa

Do ponto de vista dos endótipos, os homens apresentam maior instabilidade ventilatória, mais fragilidade na sustentação da via aérea durante o sono e um sono globalmente mais sustentado em comparação com as mulheres (Tabela 3).8

Tabela 3. Diferenças de gênero em endótipos fisiológicos durante o sono NREM8

Gênero

 

Homens

Mulheres

Loop gain

Maior instabilidade ventilatória

Melhor estabilidade respiratória

Colapsabilidade da via aérea

Pior estabilidade das vias aéreas, com maior probabilidade de ocorrência de eventos respiratórios completos (apneias)

Melhor estabilidade das vias aéreas, com maior probabilidade de ocorrência de eventos respiratórios parciais, como hipopneias e micro despertares.

Limiar de despertar

Mais alto, acordam menos com os eventos respiratórios

Mais baixo, com maior probabilidade de acordar frente a estímulos leves

Mas quais são as potenciais implicações clínicas dessas diferenças de gênero na fisiologia e nos distúrbios do sono? Sobretudo, elas abrem espaço para uma abordagem terapêutica diferenciada entre homens e mulheres. E há diversos estudos já disponíveis sobre o tema.

Diferenças na farmacocinética entre os sexos, por exemplo, são bem documentadas em várias terapias. Um exemplo clássico é o zolpidem, um hipnótico não benzodiazepínico amplamente utilizado para melhorar a qualidade do sono em pacientes com insônia. Estudos mostram que mulheres podem precisar de doses significativamente menores do que homens para evitar efeitos colaterais, como sonolência residual, que aumenta o risco de acidentes ao dirigir ou em outras atividades que exigem atenção.6

Outro estudo interessante, com 79 homens e 79 mulheres submetidos a tratamento bariátrico para perda de peso, demonstrou que essa intervenção foi mais bem-sucedida para mulheres com AOS. Apesar de não haver diferenças significativas na porcentagem média de perda de IMC entre os sexos, uma proporção maior de mulheres (90%) conseguiu descontinuar o uso de CPAP em comparação aos homens (77,5%). Essa diferença pode estar relacionada à distribuição diferenciada da gordura corporal entre os sexos.6; 9

Além disso, um ensaio clínico randomizado recente mostrou que as mulheres apresentam maior supressão de melatonina do que os homens quando expostas à mesma intensidade luminosa. Por exemplo: a 400 lux, a supressão foi de 93,7 ± 9,6% nas mulheres, contra 83,2 ± 18,7% nos homens; a 2000 lux, 99,5 ± 1,0% nas mulheres versus 96,9 ± 4,3% nos homens.10

Também já se acumularam evidências observacionais que associam o horário da atividade física à saúde cardiovascular. Como homens e mulheres apresentam diferenças marcantes na fisiologia do exercício e no cronotipo, é possível que o impacto do horário de exercícios e da alimentação sobre os ritmos biológicos seja diferente entre os sexos. Isso reforça a necessidade de considerar essas diferenças em pesquisas futuras para maximizar os benefícios das intervenções.6

Em última análise, o tratamento dos distúrbios do sono com base em dados que correlacionem ciclos de sono e secreção hormonal em cada sexo pode levar a uma compreensão mais profunda das condições do sono e ao aprimoramento das estratégias terapêuticas.2

Por isso, é fundamental que os profissionais de saúde estejam sempre atualizados sobre as pesquisas focadas nas diferenças de gênero e suas implicações fisiológicas nos distúrbios do sono. Compreender essas diferenças permite que sejam oferecidas intervenções mais personalizadas e eficazes para o manejo do sono em homens e mulheres.2

Referências:
1

RALSTON, M.; EHLEN, J. C.; PAUL, K. Reproductive hormones and sex chromosomes drive sex differences in the sleep-wake cycle. Front Neurosci, v. 18, p. 1478820, 2024. ISSN 1662-4548. Disponível em: < https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/39544910 >.

2

LEE, H. W. Sex/Gender Differences in Sleep Physiology and Sleep Disorders. In: KIM, N. (Ed.). Sex/Gender-Specific Medicine in Clinical Areas. Singapore: Springer Nature Singapore, 2024. p.443-451. ISBN 978-981-97-0130-8.

3

BURGARD, S. A.; AILSHIRE, J. A. Gender and Time for Sleep among U.S. Adults. Am Sociol Rev, v. 78, n. 1, p. 51-69, Feb 2013. ISSN 0003-1224. Disponível em: < https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/25237206 >.

4

FATIMA, Y. et al. Exploring Gender Difference in Sleep Quality of Young Adults: Findings from a Large Population Study. Clin Med Res, v. 14, n. 3-4, p. 138-144, Dec 2016. ISSN 1554-6179. Disponível em: < https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/28188139 >.

5

ALOSTA, M. R. et al. Predictors and disturbances of sleep quality between men and women: results from a cross-sectional study in Jordan. BMC Psychiatry, v. 24, n. 1, p. 200, Mar 12 2024. ISSN 1471-244X. Disponível em: < https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/38475779 >.

6

LOK, R.; QIAN, J.; CHELLAPPA, S. L. Sex differences in sleep, circadian rhythms, and metabolism: Implications for precision medicine. Sleep Med Rev, v. 75, p. 101926, Jun 2024. ISSN 1532-2955. Disponível em: < https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/38564856 >.

7

ANDERSEN, M. L. et al. Sleep in women: a narrative review of hormonal influences, sex differences and health implications. Frontiers in Sleep, v. Volume 2 - 2023, 2023. ISSN 2813-2890. Disponível em: < https://www.frontiersin.org/journals/sleep/articles/10.3389/frsle.2023.1271827 >.

8

WON, C. H. J. et al. Sex differences in obstructive sleep apnea phenotypes, the multi-ethnic study of atherosclerosis. Sleep, v. 43, n. 5, May 12 2020. ISSN 1550-9109. Disponível em: < https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/31687772 >.

9

KENNEDY-DALBY, A. et al. Weight loss and metabolic outcomes of bariatric surgery in men versus women - A matched comparative observational cohort study. Eur J Intern Med, v. 25, n. 10, p. 922-5, Dec 2014. ISSN 1879-0828. Disponível em: < https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/25468739 >.

10

VIDAFAR, P.; SPITSCHAN, M.: A Review of Sex and Menstrual Cycle Differences in the Physiological Effects of Light in Humans. J Biol Rhythms, v. 38, n. 1, p. 15-33, Feb 2023. ISSN 1552-4531. Disponível em: < https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/36367137 >.