A apneia do sono e a fibrilação atrial (FA) estão relacionadas — cada uma pode contribuir para a outra e aumentar o risco de complicações cardíacas.²
As interrupções da respiração durante o sono podem causar quedas nos níveis de oxigênio e aumentar o estresse sobre o coração, o que pode contribuir para batimentos irregulares ou palpitações ao longo do tempo.¹⁹,²⁰
A terapia com CPAP (pressão positiva contínua nas vias aéreas) pode ajudar a reduzir as pausas respiratórias em pessoas com apneia obstrutiva do sono (AOS) e está associada a uma menor chance de recorrência da FA quando usada de forma consistente.⁴,²¹
Você sabia que a apneia do sono não afeta apenas o sono, mas também pode afetar o coração? Para algumas pessoas, a apneia do sono pode estar associada a problemas cardíacos, como palpitações e fibrilação atrial (FA).¹ A seguir, entenda a relação entre a apneia do sono e o coração e como o tratamento pode contribuir para a saúde cardíaca.
A apneia do sono é uma condição em que a respiração para e recomeça várias vezes durante a noite. Essas interrupções podem dificultar que o corpo receba oxigênio suficiente.²⁴ Pessoas com apneia do sono podem apresentar:²⁵,³⁶
Sonolência excessiva durante o dia
Dores de cabeça matinais
Irritabilidade ou alterações de humor
Dificuldade de concentração
Ronco ou falta de ar durante o sono
Existem dois tipos principais de apneia do sono: a apneia obstrutiva do sono (AOS) e a apneia central do sono (ACS). Na AOS, o tipo mais comum, as vias aéreas se estreitam durante o sono, restringindo o fluxo de ar para os pulmões.²⁴ Isso pode fazer com que a pessoa desperte brevemente várias vezes durante a noite para retomar a respiração, prejudicando a qualidade do sono.²⁵
Na ACS, as pausas respiratórias ocorrem devido a alterações na comunicação entre o cérebro e os músculos responsáveis pela respiração, e não por uma obstrução das vias aéreas.²⁴ Esses episódios também podem causar despertares frequentes e interromper o sono.²⁶
A fibrilação atrial, também chamada de FA, é um tipo de arritmia cardíaca. Em circunstâncias normais, o coração se contrai e relaxa em um ritmo regular. Em alguém que vive com FA, as câmaras superiores do coração batem de forma irregular. A FA pode fazer com que o sangue se acumule no coração em vez de ser bombeado normalmente para o restante do corpo. Essa condição pode levar a uma série de complicações cardíacas e cerebrovasculares, incluindo insuficiência cardíaca, acidente vascular cerebral (AVC) e coágulos sanguíneos.³
Estudos mostram uma relação entre a apneia do sono e a FA. Ter uma dessas condições pode aumentar o risco de desenvolver a outra.2 Quando ambas estão presentes, pode haver maior risco de complicações como AVC, insuficiência cardíaca e hospitalizações relacionadas a problemas cardiovasculares.23
Pesquisas sugerem que pessoas com apneia do sono têm até quatro vezes mais probabilidade de ter FA do que a população em geral. Essa associação permanece mesmo quando os pesquisadores consideram fatores como idade, massa corporal e presença de outras condições cardíacas.²⁷ Da mesma forma, quase metade das pessoas com FA também apresenta AOS.¹ Alguns pesquisadores acreditam que a AOS pode desencadear a FA, e a FA pode contribuir para o desenvolvimento da AOS.²
A AOS e a FA compartilham vários fatores de risco:
Idade. O risco de apneia do sono e fibrilação atrial aumenta com o envelhecimento.28,30 Com o passar dos anos, os vasos sanguíneos tendem a ficar mais rígidos e o coração passa por mudanças estruturais que favorecem o surgimento de arritmias.28,29 Ao mesmo tempo, os músculos das vias aéreas podem perder parte do tônus, aumentando a chance de colapso durante o sono.30
Excesso de gordura corporal. O excesso de gordura ao redor do pescoço e das vias aéreas superiores aumenta o risco de obstrução associado à apneia obstrutiva do sono (AOS).³¹ Isso pode contribuir para a FA por estar associado à pressão alta e ao aumento do coração, o que pode resultar em estiramento e formação de tecido cicatricial.³²
Sexo. Ambas as condições são mais comuns em homens.³³
Embora a AOS e a FA frequentemente ocorram juntas, pesquisas mostram que a apneia central do sono (ACS) é mais frequente em pessoas com insuficiência cardíaca e FA.⁶,¹⁵ Na insuficiência cardíaca, o coração pode não bombear o sangue adequadamente, o que pode levar ao acúmulo de líquidos. Esse acúmulo de líquido pode afetar os gases sanguíneos e alterar a forma como o cérebro regula a respiração.¹⁵,²⁶ Pausas respiratórias repetidas durante o sono podem causar alterações nos níveis de oxigênio e dióxido de carbono, o que pode estressar o coração e contribuir para a FA.⁶ Em estudos, a ACS foi observada em até 37% dos homens com insuficiência cardíaca.¹⁵
Quando não tratada, a apneia do sono provoca pausas repetidas na respiração durante a noite. Essas pausas reduzem temporariamente os níveis de oxigênio e fragmentam o sono. Como consequência, o coração e os vasos sanguíneos passam a trabalhar sob maior sobrecarga. Ao longo do tempo, esse processo pode contribuir para pressão alta, alterações na estrutura do coração e maior risco de doenças cardiovasculares, incluindo arritmias como a fibrilação atrial.19
As pausas respiratórias também podem provocar alterações na pressão dentro do tórax, aumentando a sobrecarga sobre o coração.¹⁴ Com o tempo, a AOS pode causar alterações estruturais nas câmaras superiores do coração (átrios).
Pessoas com AOS e fibrilação atrial (FA) geralmente apresentam níveis mais elevados de inflamação no organismo.²³ Embora a inflamação faça parte da resposta natural do organismo a lesões ou infecções, ela pode ser prejudicial quando afeta tecidos saudáveis ou persiste por muito tempo.¹⁰
Condições comumente associadas à apneia do sono, como a pressão alta, também podem contribuir para o acúmulo de placa no sistema cardiovascular.⁹ Isso pode desencadear inflamação à medida que o corpo envia células imunológicas ao local onde a placa está se acumulando.⁹ A inflamação pode provocar alterações no sistema elétrico e na estrutura do coração, aumentando o risco de batimentos cardíacos irregulares.⁸
Para pessoas com apneia do sono e problemas cardíacos, o diagnóstico e o tratamento precoces são importantes para cuidar da saúde, manter a qualidade de vida e ajudar a reduzir o risco de complicações futuras.
Para avaliar a probabilidade de uma pessoa ter apneia do sono, profissionais de saúde podem utilizar sistemas de pontuação e questionários que consideram fatores como:⁷
Idade
Índice de massa corporal
Sinais e sintomas
Histórico clínico
Embora essas ferramentas não sejam suficientes para diagnosticar a apneia do sono, elas podem ajudar os profissionais de saúde a identificar quem pode precisar de exames adicionais. Por exemplo, um estudo em pessoas diagnosticadas com FA mostrou que ferramentas de pontuação podem ser úteis para rastrear a AOS.¹¹
Embora sintomas como dores de cabeça matinais e sonolência diurna possam ser sinais de apneia do sono,²⁵ o diagnóstico e as opções de tratamento devem ser avaliados por um profissional de saúde. Na maioria dos casos, os profissionais de saúde confirmam a apneia do sono por meio de estudos do sono.⁵ Um dos métodos disponíveis é o exame do sono em casa,⁵¹ realizado enquanto a pessoa dorme em sua própria cama.
No entanto, para pessoas diagnosticadas com outras condições clínicas, como a FA, o profissional de saúde pode recomendar um estudo noturno em um laboratório do sono, onde o sono é monitorado por um profissional treinado.⁵¹
Os equipamentos utilizados em um estudo do sono dependem do tipo de exame solicitado e podem incluir uma cânula nasal para monitorar a passagem do ar durante a respiração, um oxímetro de pulso para medir os níveis de oxigênio no sangue e cintas posicionadas ao redor do tórax e do abdome para registrar o esforço respiratório durante o sono. Dependendo do equipamento utilizado, o exame também pode registrar informações sobre a frequência cardíaca e, em alguns casos, o ritmo cardíaco durante o sono.²⁵ Caso sejam identificadas alterações sugestivas de uma arritmia, o médico poderá solicitar uma avaliação cardiológica complementar.
A apneia do sono e a fibrilação atrial (FA) são condições que podem ser tratadas e acompanhadas por profissionais de saúde. A terapia com CPAP (pressão positiva contínua nas vias aéreas) é frequentemente recomendada para o tratamento da apneia obstrutiva do sono (AOS). Na terapia com CPAP, o dispositivo fornece um fluxo contínuo de ar por meio de um tubo e de uma máscara que cobre o nariz, a boca ou ambos. Esse fluxo de ar evita que as vias aéreas colapsem durante o sono em pessoas com AOS.²¹
O tratamento da apneia central do sono (ACS) depende de sua causa e do padrão respiratório apresentado por cada pessoa. Em alguns casos, especialmente quando a apneia central surge após o início do tratamento da apneia obstrutiva do sono, a terapia com CPAP pode ajudar a estabilizar a respiração ao longo do tempo.¹²,⁵² Em outras situações, podem ser necessárias modalidades mais específicas de suporte respiratório durante o sono. Entre elas está a servoventilação adaptativa (ASV), uma tecnologia desenvolvida para ajudar a estabilizar padrões respiratórios instáveis caracterizados por períodos alternados de hiperventilação e pausas respiratórias.⁵⁰ Já pacientes com condições associadas à hipoventilação podem necessitar de dispositivos biníveis com frequência respiratória de segurança (backup rate), capazes de fornecer suporte ventilatório adicional quando a respiração se torna insuficiente durante o sono.⁵² Como existem diferentes tipos de apneia central do sono, a escolha do tratamento deve ser individualizada e baseada na avaliação clínica, nos resultados do estudo do sono e na presença de outras condições de saúde, como insuficiência cardíaca, doenças neuromusculares ou síndromes de hipoventilação.¹²,⁵²,⁵⁰,⁵³
O uso consistente da terapia com CPAP é importante para pessoas com AOS.⁴⁸ A adaptação ao tratamento pode levar algum tempo, e um profissional de saúde pode orientar estratégias para facilitar o uso regular do dispositivo.
Embora a terapia com CPAP seja uma opção de tratamento para a AOS,⁴⁹ outras abordagens também podem ser consideradas. Elas podem incluir aparelhos intraorais (como dispositivos de avanço mandibular), mudança de posição ao dormir ou cirurgia.⁴⁶,⁴⁷
O tratamento da FA frequentemente envolve medicamentos e mudanças no estilo de vida.⁴⁵ Em alguns casos, os médicos podem recomendar abordagens cirúrgicas e não cirúrgicas.⁴⁴ Uma dessas opções é a cardioversão elétrica, procedimento que utiliza um choque elétrico controlado para ajudar a restaurar o ritmo cardíaco regular.⁴⁴ Em outros casos, um marcapasso pode ser uma opção de tratamento.⁴³ Um marcapasso é um dispositivo eletrônico implantável que ajuda a manter o ritmo cardíaco adequado.⁴³
Esses tratamentos ajudam a controlar a FA e os sintomas. Para pessoas com apneia do sono e FA, o acompanhamento pode envolver profissionais de diferentes especialidades para ajudar a coordenar os cuidados. O controle do peso, a prática regular de exercícios e a redução do consumo de álcool podem beneficiar a saúde do coração e a qualidade do sono. O controle de outras condições de saúde, como diabetes e pressão alta, também pode contribuir para a saúde geral.²²,⁴¹
Embora o CPAP não trate diretamente a fibrilação atrial, tratar a apneia obstrutiva do sono pode contribuir para o controle da arritmia. Em uma metanálise de estudos observacionais envolvendo pacientes com AOS e FA, o uso do CPAP esteve associado a uma redução relativa de 42% na recorrência da fibrilação atrial. Como esses estudos não foram randomizados, o resultado deve ser interpretado como uma associação, e não como garantia de benefício para todos os pacientes.4
Além disso, o uso regular de CPAP pode contribuir para melhorar o sono e a qualidade de vida.
O tratamento da apneia do sono pode melhorar os resultados de procedimentos para FA, como a ablação por cateter.⁵⁴ Também pode estar associado a menos cansaço diurno. Ao ajudar a controlar a FA, o CPAP também pode reduzir o risco de AVC. Algumas pessoas podem precisar de menos medicamentos para o ritmo cardíaco quando sua apneia do sono é tratada.
*A terapia ASV é contraindicada em pacientes com insuficiência cardíaca crônica e sintomática (NYHA 2-4) com fração de ejeção do ventrículo esquerdo reduzida (FEVE ≤ 45%) e apneia central do sono predominante moderada a grave.³⁴
Para pessoas que vivem com AOS e FA, o tratamento da AOS está associado a menos internações hospitalares e menos atendimentos de emergência ao longo do acompanhamento.⁴⁰
De acordo com estudos, a pressão positiva contínua nas vias aéreas (CPAP) melhora os sintomas da AOS, incluindo sonolência diurna e má qualidade do sono à noite, o que pode ter um impacto positivo na qualidade de vida.³⁹ Além disso, pesquisas sugerem que o uso do CPAP pode estar associado a menor recorrência da fibrilação atrial e menor probabilidade de evolução para formas mais persistentes da arritmia em pessoas que apresentam as duas condições.¹⁸
Pessoas com ambas as condições apresentam riscos mais elevados, e o tratamento pode ajudar a reduzir esses riscos.18 A prevenção de AVC é especialmente importante para esse grupo.
Novas ferramentas estão sendo desenvolvidas para ajudar a identificar possíveis riscos mais precocemente. Pesquisadores e profissionais de saúde também estão desenvolvendo planos de tratamento personalizados com base nas necessidades e nos fatores de risco de cada pessoa.
Planos de tratamento adequados, aliados aos avanços em pesquisa e tecnologia, podem contribuir para uma melhor qualidade de vida de pessoas com fibrilação atrial (FA) e apneia do sono.²² Tecnologias vestíveis também podem oferecer novas formas de identificar e acompanhar essas condições crônicas, permitindo uma participação mais ativa das pessoas em seus cuidados de saúde.
Por exemplo, adultos mais velhos que vivem com apneia obstrutiva do sono (AOS) e fibrilação atrial (FA) podem enfrentar riscos de saúde únicos, como um aumento do risco de AVC.³⁷ Homens e mulheres frequentemente apresentam sintomas diferentes, o que pode afetar as abordagens de diagnóstico e tratamento.³⁶ Além disso, atletas podem ter um risco aumentado de desenvolver FA.³⁵ Durante a gravidez, o acompanhamento cuidadoso dessas condições coexistentes é recomendado.
A apneia do sono tem sido vinculada à FA e a outros problemas de ritmo cardíaco, mas muitos fatores podem desempenhar um papel. Fale com um profissional de saúde se notar batimentos cardíacos irregulares ou palpitações.
Se notar sintomas súbitos ou graves, como dor no peito, tontura ou desmaio, procure atendimento médico imediatamente.
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